segunda-feira, 12 de setembro de 2011

O naturalismo não proibe que se encontre Deus. Apenas que não se recorra a Deus para tapar buracos.

O texto de Alvim Plantinga referido no post anterior é uma fonte divina de raciocínio enviesado e tendencioso que só pode servir para injectar falaciosamente teísmo na filosofia  e  na ciência. Aqui vai mais uma amostra:

"A terceira restrição  [do naturalismo]  é, então, que a base epistémica de uma teoria apropriadamente científica não pode incluir proposições que impliquem obviamente7 a existência de Deus ou quaisquer outros agentes sobrenaturais, ou proposições que sabemos ou pensamos que sabemos por meio da revelação."

Poder pode. Precisa é de evidencias fortes. Entidades extraodinárias requerem evidencias extraodinárias. O problema é que nada no universo sugere fortemente a existência de Deus, pelo contrário, e Deus por seu lado, caso exista, parece estar a usar a sua superpotência para apagar os traços da sua existência. A revelação tal como é apresentada pelos teístas é apenas um palpite que tem um registo histórico desastroso com uma diversidade brutal de caracteristicas, numero e vontades dos deuses. Não tem maneira de se estabelecer como fonte epistemológica. Nem de se distinguir do palpite curriqueiro.

Continua:

"Pois considere-se alguém que de facto aceita as linhas principais de uma das religiões teístas, e trabalha na área da psicologia evolucionista. Sem dúvida que irá honrar o NM [turalismo metodológico] como restrição à sua actividade científica. Se o fizer, para todos os propósitos científicos irá eliminar do seu corpo de dados as proposições que impliquem obviamente a existência de Deus ou de outros seres sobrenaturais, tal como o que ela sabe ou pensa que sabe por meio da fé ou da revelação. "

 A selecção de evidências cientificas não é de acordo com o que elas dizem. Não é se sabem bem, são agradáveis ou se implicam deus ou não. É se estão bem colhidas e são de confiança. Há uma hierarquia mas não relacionada com o significado da evidencia. É relacionada com a garantia que temos de não haver erro na sua apreensão. Ler sobre evidência anedótica aqui para uma explicação sobre o assunto.

Se Deus aparecer aí a fazer milagres, salvar o pessoal e a explicar umas coisas será difícil negar a existência de uma criatura tipo-deus para dizer o mínimo. O problema é que vivemos num mundo sem milagres, pleno de desgraça e onde as coisas naturais não parecem seguir um plano de longo prazo no seu contexto geral. Nem hoje, nem nunca. Longo prazo e objectivos - sinais de intencionalidade -  parece ser uma coisa unicamente pontual, biológica, relacionada com seres vivos moderadamente evoluidos e relativa apenas a estes.

Como se vê, o naturalista pode aceitar intencionalidade. Têm é de ter cuidado para não a ver em todo o lado. E é isso o naturalismo em ultima análise. É não usar intecionalidade para explicar o que pode ser explicado sem ela.



E voltando a Platinga, claro que com estes enchertos de dogmatismo absoluto em cima do naturalismo, a conclusão a que vai chegar é que a ciência naturalista é cega:

"Mas então ela poderá muito bem produzir teorias do género que temos vindo a apontar, ."

Que é o que a ciência produz - "teorias incompatíveis com a religião teísta" - e ainda bem que ele reconhece. Mas é porque não há maneira de distinguir a crença em Deus da existência real de Deus.

Deus ser incompativel com a ciência é resultado da constatação que usar Deus ou deuses para tapar buracos do conhecimento não leva  a nada.

Principios como "as entidades não devem ser replicadas para além do necessário" e "entidades extraórdinárias precisam de provas extraódinarias" não existem à toa. Se baixarmos a nossa exigência face ao tipo de evidências que precisamos para aceitar algo como a auto-revelação ou qualquer outro aspecto de testemunho anedótico ficamos com um mundo infestado de demónios, fadas, duendes, etc. Coisas para as quais não teremos mais que evidência fraca para demonstrar a existencia. E a pergunta então é, para que serve isso? Para nos deixar felizes? Tudo bem. Acredite quem quer, mas não faz sentido na mesma.

E além disso, sabemos que exigir evidências sólidas funciona melhor que qualquer outra coisa e permite conhecimento que é o melhor que temos no que toca a fazer previsões sobre o que vai acontecer ou podemos encontrar.

PS: Eu considero que Deus já foi uma boa explicação. Mas já não. O problema é que não sendo parte da explicação começou a ser parte do que é regeitado pela explicação. Problema para quem não quer deixar de acreditar, claro.
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