quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Uma das marcas do cepticismo é a mente aberta. Mas não tão aberta que o cérebro nos caia ao chão!

Talvez a característica mais famosa do cepticismo seja a disposição para abordar conceitos ou afirmações com duvida metódica e de promover um raciocionio baseado nas evidências. Como este é o trabalho dos cientistas, normalmente os cépticos consideram a verdade cientifica satisfatória.

Mas há outra característica, que naturalmente se relaciona com esta, que é tão ou mais importante na formação do céptico e da sua maneira de pensar. E que é francamente mal compreendida pelos que abordam os cepticos - parece-me que o cetico é visto como alguém que à priori nega uma série de coisas. Mas isso é o oposto do que ele é. Normalmente quem faz essa acusação é que tem um conjunto de coisas que à priori quer que sejam verdade.


Estou a referir-me à capacidade de largar uma crença. De mudar de ideias, de abandonar uma linha de raciocínio quando as evidências apontam noutro sentido e de querer procurar essas novas ideias. Em resumo, de manter a mente aberta, no sentido mais favorável que manter a mente aberta pode ter. (Já que se é ter mente aberta para servir de caixote do lixo não vale a pena).

O céptico é alguém que compreende que é preciso uma abordagem racional baseada nas evidências. Mas terá nascido assim?

Ou aprendeu isso por perceber que muitas crenças estavam erradas? E percebeu que estavam erradas por ser capaz de as largar?

Isto, proponho eu, pode acontecer muito antes de compreender a importância de sistematizar testes e colher dados. Pode ser algo que se aprende com os dados colhidos pela vivência simples, numa jovem idade. Desde que estejamos dispostos a não manter crenças apenas por já “serem nossas” – situação em que em vez de as ideias serem nossas, nós é que somos das ideias!

Uma das primeiras coisas que poderia formar o cepticismo enquanto abordagem racional, seria precisamente poder abdicar de ideias e assim poder duvidar até de si próprio, se for preciso. E isso manter-se-ia depois ao longo da evolução do pensamento. O céptico compreenderá que o raciocínio e não as ideias em si é que são importantes e que fazem a diferença. É o “como se sabe” que é importante. Mais do que “o que se sabe”, ja que a justificação é que distingue as crenças quanto à plausibilidade e veracidade. E para manter esse processo evolutivo das ideias a funcionar, antes de mais tem de se ser capaz de abandonar as mais fracas.

As crianças têm superstições. Uma data delas. A maioria das pessoas perde algumas das superstições pelo mesmo processo em que o céptico perde todas. Porque vê que não funcionam. Mas com diferenças fundamentais. O céptico está disposto a largar a própria ideia da superstição quando uma série delas não funciona. E aceitar explicações que são incompatíveis com a superstição. O não céptico larga apenas uma ou outra e passa para seguinte. Ou pura e simplesmente vai substituindo umas pelas outras, cada vez mais complexas e inexplicáveis. Não está disposto a largar a ideia da superstição em si.

Por exemplo, numa palestra, o Phill Plait, pergunta a uma audiência de cépticos quantos deles ja acreditaram em pseudociencias de qualquer espécie e dá como exemplos poderes psíquicos, Ovnis, etc. Uma grande parte da audiência levanta as mãos. Isto sugere que há não só uma evolução nas crenças de um céptico mas também na maneira como essas crenças são formadas.

O céptico muda de ideias não só porque privilegia a o raciocínio baseado na evidência mas também porque  teve de abandonar outras formas de construir crenças. E fê-lo porque podia. Quando foi preciso foi capaz de  abandonar essas crenças erróneas e essa maneira de pensar. Porque podia aceitar que não funcionavam em vez de imaginar razões que justificassem manter a crença.

É argumentável ( e correctamente) que se não houver já uma propensão para questionar não se pode perceber que a nossa crença está errada. Tudo bem. O cético é alguém que à partida duvida mais que os outros. Mas a propensão para questionar parece estar muito mais bem distribuída pela população que a capacidade de abandonar uma ideia errada. Aliás, parece-me que todos questionamos pelo menos as ideias dos outros. As nossas, depois de instaladas, é que é difícil, já que pode levar a ter de concluir que está errada. E a ter de abandonar essa ideia.

E essa capacidade de abandonar uma ideia errada face a nova evidencia, e a repetição do processo pode levar por sua vez à duvida metódica, porque põe a tendenciosidade fora do caminho, porque abre buracos no conhecimento passiveis de serem preenchidos “de novo”. E é por isso que eu proponho que essa seja uma das características que define o cepticismo. Todo o céptico. E uma das vias pela qual muita gente chega a tornar-se um céptico.

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