terça-feira, 16 de agosto de 2011

O espiritismo desmistificado.

Os espíritas insistem que não podemos criticar o espiritismo sem ler as obras completas do Allan Kardec. Dizem que não podemos saber o que estamos a criticar se não o fizermos.

Estaria de acordo se quisesse criticar o estilo, a encadernação das obras ou como devem lá conduzir os promenores das crenças deles. Mas eu critico antes alegações bem conhecidas e gerais dessas obras ou afirmações que se possam racionalmente extrair desses textos (e desde que lá se suponha que existem espiritos imortais não estou a enganar muito). Critico alegações de fundo e que refletem questões de matéria de facto. Critico alegações sobre o mundo que nos rodeia e que dizem respeito a todos. Não apenas a quem queira seguir uma ou outra doutrina espirita. E depois comparo a essas afirmações com aquilo que é suportado pelas evidencias.

Quem diz o que lá diz são os espiritas. Se eu disser que la diz algo que não diz, aceito ser corrigido. Mas não tem sido esse o problema. Parece que de um modo geral o cetico acerta nos fundamentos do espiritismo (vida após morte, dualismo mente/cerebro, comunicação com os mortos). O que discordamos é na veracidade e plausibilidade desses fundamentos.

Pretenderão que as evidencias a favor do espiritismo são apenas a autoridade de um homem e a força da sua palavra? Isso é um apelo à autoridade falacioso (por não ter sido primeiro sequer estabelecido como poderia ele ser especialista de uma coisa que não está demonstrada). Por outro lado, se os únicos relatos sistemáticos que suportam o espiritismo são os encontrados nestes textos de cerca de 1850 o problema é o mesmo. Outra falácia. É evidencia anedótica, já que não se consegue repetir as coisas independentemente e com os mesmos resultados.

De facto, existe uma série de experiencias, relatos, descobertas, investigações, etc. que mostram que alegações de comunicações com mortos são treta. Há evidencias cada vez mais fortes que a mente é emergente do cérebro e que não há algo como uma alma sobrenatural e que a nossa vida não é mais que o funcionamento do nosso corpo ( e que isso já é complexo o suficiente). E que por mais que se procure exaustivamente não há evidencias de vida após a morte. E após uma procura exaustiva ausencia de prova é prova de ausencia.

Os espíritas procuram trazer documentos que mostrem previsões bem sucedidas pelos seus espíritos. Tal como os astrólogos. Mas a verdade é que fazendo muitas previsões sobre muitas coisas algumas vão ter de sair correctas. Não podemos isolar os resultados positivos no meio dos negativos e fingir que acertamos tudo quando fazendo as contas o sucesso teve uma percentagem muito baixa. E é isso que conta.

É este de resto um dos princípios dos truques usado nas sessões mediúnicas (e por mágicos do Showbiz) e de resto hoje bastante bem documentados. O médium lança para o ar problemas frequentes que todos temos, atira uns nomes comuns, e quando tem um "hit" não larga. As pessoas perdem o fio à meada e esquecem-se de todas as hipóteses rejeitadas anteriormente. AO que ajuda muitas vezes um contexto de forte carga emocional. Tendem a lembrar-se apenas das hipóteses que acertaram em algo. Ou lá perto...E nem se apercebem da probabilidade elevada, vulgo "clichés", que são as hipóteses propostas pelos médiuns. Tipo "Um familiar próximo que morreu de doença prolongada e que deixou algo por dizer...". E que se chamava Amanda, Fernanda, Alexandra, Xana ou Ana. Chama-se a isto "fishing". Para saber se há previsão é preciso anotar todas as hipóteses e ver a percentagem de sucesso. Quando isto é feito a sério e bem feito, os espíritos não adivinham nada. Não é preciso ler os livros do Kardec para saber isto.

Também não é preciso ler os livros do Kardec para saber que já Faraday, o físico, tinha mostrado uma maneira muito engenhosa e eficaz para mostrar que nas sessões espíritas eram as pessoas que faziam os objectos mexerem-se, ao colocar camadas moveis debaixo dos dedos. Se a camada de cima (em contacto com os dedos) mexe antes do objecto e das camadas debaixo(seja este um copo, uma mesa ou o que for) é por que é a pessoa que esta a mexer o objecto e não o espírito.

De facto, Faraday suspeitava de algo apenas demonstrado electrofiosiológicamente muito recentemente. Que basta nós pensarmos num movimento para parte do impulso seguir para os nossos membros. Muitas pessoas empurravam os objectos nestas sessões sem sequer se aperceberem. Sem fraude consciente. E depois deles se começarem a mexer só a antecipação do movimento e de ter de o seguir dá origem a mais empurrões. E esta é a explicação de mais movimentos de pêndulos "mágicos" que me chegaram aos ouvidos à pouco tempo.

De qualquer modo suspeito que nos livros de Kardec não se encontre um pingo de evidencia acerca do espiritismo. Apenas códigos e regras de procedimentos. Mesmo sem ler, arrisco dizer que lá não vêm lá justificações sólidas sobre como eles sabem o que dizem que sabem. A não ser que os espíritas as queiram esconder de toda a gente! E tenham uma mania estranha que só a pode conhecer quem a ler directamente no próprio livro...

Mas dizer que só lendo o livro dele é que podemos criticar o espiritismo é uma maneira de dizer que tudo o que é importante a suportar o espiritismo está lá e apenas lá. Ou seja, que não é confirmável independentemente nem reproduzível - e isto é algo imprescindivel e inultrapassavel para julgar alegações. Senão, vale tudo! Na melhor das hipóteses, sendo assim, seria algo que apenas aconteceu ou acontecia por vota de 1850.

Mas mesmo assim, tendo em conta tudo o resto que sabemos do universo e juntando todas as tentativas frustradas de demonstrar almas, espíritos, comunicações com o além, pré-cognição, etc. sou obrigado pelas evidências a rejeitar essa hipótese de uma época em que os espíritos falavam connosco e os mortos eram vivos à sua maneira.

Quem quiser demonstrar que estou errado avance com evidencias. Afirmações qualquer um pode fazer. A diferença é a justificação. E quanto mais extraordinária a afirmação mais extraordinária tem de ser a justificação. Esta de ter de ler o Kardec para poder criticar o espiritismo é ultrapassada apenas pelo abuso das afirmações do espiritismo propriamente dito.

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