sábado, 27 de agosto de 2011

O mundo visto através dos testes cegos.

A percepção humana da realidade é altamente variável perante uma série de factores. E a melhor maneira que se encontrou para eliminar influencias paralelas mas não pertinentes foi recorrer a testes cegos.

Tenho discutido neste blogue com imensa frequência a importância do teste cego (ou com ocultação) na elaboração de ensaios clínicos e avaliação de propostas terapêuticas. De facto, o primeiro registo histórico de um teste cego é o do realizado por Lavoisier e Benjamin Franklin a pedido da Academia de Ciências Francesa, para descobrir a verdade acerca do “magnetismo animal”. Os proponentes desta teoria falharam a identificação cega de frascos com fluidos orgânicos, como seria de esperar pelas suas alegações se fossem correctas.


Mas para além da área da saúde, naturalmente que existe uma série de outras aplicações possíveis para a ocultação nos testes, e alguns resultados bastante curiosos que vale a pena conhecer. Não, não me refiro ao “Pepsi challenge”. Mas... Quase.

Também já tinha falado na incapacidade dos enólogos de distinguirem os vinhos franceses dos americanos em provas cegas. E do publico em geral não distinguir um vinho de preço médio de um vinho de preço elevado. Parece que para a maioria das pessoas e mesmo enólogos, que se o vinho não for uma enorme zurrapa, então são todos igualmente bons. Nota para os vinicultores portugueses: Ponham os nossos vinhos em provas cegas que vão sair nos resultados entre os melhores do mundo (a não ser que haja fraude).

Mas há uma série de outras coisas interessantes.

Por exemplo. Os violinos de Stradivarius não são capazes de ultrapassar uma prova cega. Existem poucas experiências ainda mas nas efectuadas, os resultados não favorecem o mito. E para os que pensem que isso pode apenas significar que os Stradivarios estão a perder qualidades fiquem sabendo que o fenómeno do Stradivarius não é desde sempre. Na época não eram sequer considerados os melhores. E hoje são (desde que o teste não seja cego). O que se passa neste caso é mais uma história de “O rei vai nu”. Ou talvez nú propriamente não esteja, mas como li algures noutro dia, “o monarca vai pelo menos de ténis e fato de treino”.

Mas na música as coisas não se ficam por aqui. E no mundo dos audiófilos as coisas também não são como eles pensavam. Não ouvem o que pensam que ouvem! Os testes cegos mostram que as pessoas não distinguem entre amplificadores, sinais digitais ou analógicos (lamentamos, mas os adoradores do vinil se não tiverem o ruido de fundo para diferenciar não sabem dizer qual é qual – como por exemplo distinguir entre o vinil e o som gravado digitalmente dessa mesma fonte de vinil), cabos ( parece que aqui há indícios e indícios apenas, de que alguns cabos possam ser distinguíveis por algumas pessoas, mas não pela maioria). Na realidade, a maior parte das preferencias dos audiofilos não fazem uma diferença que eles proprios consigam distinguir.
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