quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Deus das lacunas.

O naturalismo metódico é aquilo que os criacionistas e defensores do ID (que é realmente criacionismo com outra roupagem), querem eliminar da ciência. A abordagem naturalista, que é sumariamente, procurar causas naturais para os fenomenos naturais, exclui necessáriamente a intervenção sobrenatural. 

Não podemos mais atribuir os trovões a um Deus, a chuva a  outro, etc. Nem tudo ao mesmo. A não ser que possamos trazer evidências ou provas que mostrem isso. Se não indica que essa é inequivocamente a solução, temos de procurar outra. Não é por não a termos que podemos atribui-la ao que mais nos convém. Dá trabalho. Não agrada a muita gente.

Mas o que a ciência sugere fortemente, é que esse é o caminho a seguir. O do naturalismo. Ao longo de seculos, foi a unica abordagem que criou conhecimento tão consistente, tão completo e em tão pouco tempo.

Porque ao procurar uma explicação natural para as coisas, começámos a encontrá-las. De facto, encontrámos explicação para tanta coisa, que o espaço deixado para intervenção sobrenatural, ficou muito reduzido. Ficou reduzido a pequenas lacunas do conhecimento cientifico.

De notar que isto não é o mesmo que dizer que a ciencia regeita "à priori" que existam Deuses , fantasmas ou duendes, por exemplo. Apenas que se eles existem, então vamos ter que encontrar observações que só possam ser explicadas pela sua existência. Tal como por exemplo a observação directa de tais seres - mas de um modo credivel, não por histórias de diz que disse ou evidencia anedótica. 

Se o sobrenatural existe, e coisas com causa sobernatural acontecem, só temos de as encontrar. E cá por mim, passam a ser tão naturais como tudo o resto. Se há fantasmas, que se mostrem evidencias. E eles passam a ser matéria da ciencia. Tal como Duendes ou magia. Se aparecer um Duende em frente ao mosteiro dos Gerónimos, ele passa a ser tão objecto da ciência como o macaco ou o cão.

O problema, é que coisas que não tenhamos a ideia como aconteceram, que estejam de tal modo mal compreendidas que se possa apontar uma origem sobrenatural são cada vez menos. E destas as que poderão sugerir diretamente uma intervenção sobrenatural ainda menos. Talvez o unico exemplo seja a criaçao do universo. O que deixa a inquietante pergunta de que é que andou o Criador a fazer depois disso. E ainda mais, quem o criou a Ele.

Na realidade, dizer que algo é sobernatural, não faz sentido nenhum. Ou existe ou não existe. Se existe, então deve haver alguma evidencia que exista. Se estamos a discutir a existencia de um ser omnipotente, omnisciente e omnipresente ainda menos sentido faz que não encontremos evidencias inequivocas da sua omnipresença, omnisciencia e omnipotencia. Pelo menos, se ainda argumentamos que Deus é interventivo. Se isto fosse verdade, eu diria que Deus era tão natural como qualquer outra coisa.

Porque senão temos que aquilo que entendemos por sobrenatural é caracterizado por ser aquilo que não se pode provar que existe nem identificar onde se manifesta a sua existencia. O que em teoria, é possivel, mas é pouco plausivel. Porque se não se pode provar nem identificar onde se manifesta a sua existencia, é uma maneira de dizer que não acontece. 

E isto não tem nada a ver com as coisas que nós não podemos saber por questões de medição pratica ou de numero de ponderáveis. Isto é, não é por não sabermos que numero vai sair na lotaria que podemos atribuir esse resultado a Deus. Porque sabemos minimamente o que se está a passar. E é tudo neste mundo. Ou não é por não sabermos o pensamento especifico de uma pessoa especifica num momento especico que temos uma falha no conhecimento cientifico. Porque temos uma ideia muito boa de como funciona o cerebro. E não é uma que sugira intervenção divina.

É por isso, que se chama Deus-das-lacunas ao deus que intervem no mundo natural. É porque só sobram umas pouquinhas de lacunas. E é isso que os criacionistas e dualistas querem fazer.

E é por isso que a ciência tem uma descrição do universo diferente da religião. Descrevem causas diferentes e apresentam justificações diferentes. Uma diz que as coisas que observamos têm causas naturais, todas ou quase, faltam umas lacunas, e a outra diz que há coisas que só Deus pode ter feito, mesmo quando se identificam causas e explicações naturais e precisas para esses fenomenos. 

Uma aceita a palavra irreprodutivel de uns poucos como portadores da verdade absoluta e a outra, a ciencia, poe em causa tudo o que é dito e feito, dentro e fora dela. Porque só pela palavra de um homem ou 10 ou 20, não se faz ciencia. Einstein não foi aceite cientificamente por ter uma figura simpática. Mas sim porque as suas teorias fizeram previsões que foram confirmadas, além de serem capazes de explicar tudo o que ja se conhecia. E de, claro, isto poder ter sido confirmado por todos os que estavam em posição de o fazer.

Senão tinhamos profetas também na ciência. E não temos. Temos pessoas que descobriram coisas que os outros puderam confirmar.

E que nos permitiram chegar a numeros populacionais impensaveis, e a esperanças médias de vida loucas e fazer coisas que qualquer homem de há 300 anos diria que eram magia.

Deus continua sem dar sinais de vida, mas a tecnologia atravessa a sociedade. E se bem que por vezes ela seja mal utilizada, também não é Deus que tenta proteger as vitimas do seu abuso.

Quem se questiona abertamente sobre o universo, e procura respostas, sabe que só a ciencia foi capaz de proporcionar algumas. E que outras entidades, que por definição conveniente, escapam à pesquisa cientifica, não passam senão de elaborados pressupostos que não explicam nada. 

A ciencia reduz deus todo-poderoso a um deus-das-lacunas.

E é por isso que os religiosos andam tão activos ora em redefinir ciência, ora em dizer que quem a pratica não sabe nada sobre ela, ou mesmo, tentar dizer que é tudo verdade ao mesmo tempo. Mas isso, tudo verdade ao mesmo tempo, só se for em universos separados. Neste em que vivemos, a melhor descrição que temos é a dada pela ciencia. 

É possivel conceber um deus omnipotente, omnisciente, omnipresente e ainda por cima moral à luz do conhecimento cientifico? Sim, penso que como exercicio de pensamento é possivel. Mas não é plausível.

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