terça-feira, 11 de dezembro de 2012

A falácia ortografica. Desprezar um texto ou argumento porque tem erros ortográficos.

A língua é em grande medida uma convenção. Por isso temos tantas línguas diferentes, ininteligiveis entre si, apesar de se supor uma grande maioria delas ter uma origem comum.

Livros antigos, às vezes tão antigos como 100 anos, estão aos nossos padrões pejados de erros ortográficos, embora seja legível e indentificavel como sendo uma determinada língua.

No entanto, em coisas não convencionadas,  muita coisa que tem agora perto de 100 anos como conhecimento, mantém a sua pertinência. As bases não mudaram nada desde essa altura. A mecânica quântica e a relatividade são padrões porque ainda nos regemos, e Darwin viveu há 200 anos.

Isto acontece porque uma coisa refere-se ao que podemos saber que não depende da nossa crença e a outra depende muito da nossa crença, de como achamos que deve ser, de como os outros querem ouvir, de como queremos ser ouvidos, lidos, etc. E depende ainda de revisões por especialistas. Imensas. A língua evolui por via popular e por via erudita. A nossa língua de hoje passou por inúmeras alterações ad-hoc feitas do mesmo modo que a do actual acordo ortográfico. Do qual eu sou a favor, mas temos de tentar melhorar aquilo.

Mas isto é para dizer que a ortografia é apenas uma parte da forma da mensagem. Fazer de Nazi da gramática para excluir textos que não correspondem a uma data ortografia, desprezar o conteúdo do texto por isso e julgar assim sumariamente o autor é apenas uma falácia. Um Red Herring de quem quer usar um pretexto paralelo para não perseguir uma discussão.

Existem estudos e dados que todos podemos verificar que mostram sem sombra de duvida razoavel que a ortografia pode variar imenso sem que isso afecte a compreensão de uma mensagem. Por exemplo:

"Dizer que uma pvalara se escreve assim e não assado é uma questão pticamracente arbitrária.

Não é mátiatemca, não é algo como uma lei nratual.


A orafirtoga é uma cenonvção. É uma csoia que foi ddidecia como dieva ser (em opoçãsio a aglo que se dbescoriu como é). Não há uma oogrartfia moelhr que oruta por nnhuem pdraão que seja lgicóo. É uma coisa n0rmatiwa. Dcuiste-se se se deve ceronsidar a n0rm4 o que faz a mraioia ou se se deve forçar a moairia a feazr como mdaanm uns pcoous.  EM ambos os casos, o qeu é correcto a cada mntomeo, só o é porque uns cguonsee iompr a outros pela força a sua meianra de escrever.  Não há para essa ortogradia uma juicastifção rioacnal.

E doepis, mdua mituo dressepa.  Eolvui. E isso preace-me um não-polebrma.
Mas há miuta gntee a qeum isso faz uma cusãonfo tmenreda, vá se lá sbear pquorê. Têm de intisisr em crvonsear as pvralaas tal como estão. Se clhaar qiauerm  que faselasmos ainda Indo-europeu. Mtuios erros, é estcamétiente deadásagrvel. Mas é só isso.
De ftaco, não é reealmnte irtanmpote para tmiranstir uma magensem ernte seers hnoumas que a orafrtogia ejstea cecorrta,  como dstemonra este ttexo. Bsata un mimino, um nadinha, o sieuficnte para rnheecocer as pvalaras e está tudo bem.

Por isso, porque riao é que no mieo de duçiscões sobre coisas remenalete com impampcto nas nsaoss vaids tem de hvear srepme auelgm a contar erros ográrictofos? 

Pecare-me spreme uma coisa minhesqua e dropesposita que só serve para fazer juizos adpressaos e devisar a ançteão do que é imtaporte. 
Que hjaa uma nmora a suegir, tduo bem. Mas que hjaa uma oessbsão con iço é rcidíulo. 

Por isso, tentem compreender que um ou dois erros num texto, não tem significado nenhum. Façam o favor de perder tempo com coisas importantes, sim?"


Um estudo muito interessante da Microsoft que li há uns anos mostrava que o tempo perdido com os erros ortograficos era na casa dos milionesimos de segundo a décimos de segundo se fossem grandes erros. Não encontro esse estudo. Se alguém encontrar agradeço. De resto a procura por esse estudo veio mostrar-me que se estuda mais o problema dos erros de ortografia por assumir que é um problema à partida do que estudar em que se reflete esse problema. Para já só encontrei que diminui as vendas porque  as pessoas não gostam. Mas isso é uma questão estética pouco sofisiticada. Depois há alguma correlação entre dificuldades de interpretação e dar muitos erros ortográficos. Mas isso não é verdade para pessoas que lêem muito, pelo que será mais util como screening de problemas de compreensão que outra coisa.

De facto existem pessoas com boa capacidade de compreensão da escrita e de expressão mas que mantém alguma dificuldade em manter um texto livre de erros. A dislexia, que afecta muita gente muito produtiva e importante, é uma dessas condições.

Onde eu quero chegar, e para terminar, é que a ortografia não diz nada acerca do conteudo daquilo que está escrito. Até os dislexicos podem escrever perfeitamente, uma vez que por um leitor digital a ler o texto em voz alta é practicamente infalivel. Mas isso requer tempo e esforço e serve apenas para satisfazer caprichos de que existe algo de superior na ortografia.

Daqui a muitos anos, muitos dos temas que eu investigo e debato neste blogue serão certamente pertinentes, e a maneira como lidamos com eles hoje será igualmente determinante ( eu não pretendo ter a "verdade", ok, apenas contribuir a minha parte de cidadão preocupado). A ortografia actual será esquecida e ficará apenas o conteudo das palavras. Porque para quem não está muito habituado a uma determinada grafia, os erros não saltam à vista. A mim muitos erros saltam à vista, sobretudo se não forem escritos por mim, e na lingua portuguesa (Daniel Dennet queixa-se do mesmo problema por curiosidade). Em Inglês também. Mas lendo em francês ou italiano isso já não acontece. Porque não há uma espectativa e um preconceito tão forte acerca do que deve ser. Mas isso não é assim tão importante. É casual e efemero. 
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