sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Não é cientificismo. Precisamos mesmo da ciência.

Quando paramos no semáforo e vemos os carros de outras vias a passarem-nos à frente, sabemos que se arracarmos para a frente deles é bem provavel que haja uma colisão. E havendo uma colisão é bem provavel que haja estragos, alguns no material outros enventualmente biologicos. Por isso tomamos a decisão de não ignorar o semaforo e por isso existem semaforos.

Mas nem tudo é tão simples. Há fenomenos do mundo fisico que são muito mais complicados de prever e que ultrapassam em larga medida a nossa intuição e experiencia pessoal. E mais que para entretenimento intelectual é para isso que serve a ciência. Para, de acordo com escolhas iniciais simples, como escolher o bem estar, escolher viver e reconhecer os outros como iguais, conseguirmos ter opções - através do conhecimento cientifico e da tecnologia - que levem a uma optimização dos resultados das nossas acções no sentido dessas escolhas.

Por exemplo:

O que acontece se lançarmos CO2 para o ar como se não houvesse amanhã ,  e como podemos resolver isso? Que consequências há de inocular uma população com uma forma atenuada/morta/modificada de um agente patogênico, ou de não o fazer? Qual o significado da democracia na estabilidade mundial? E as desigualdades? Como aproveitar a unica fonte quase inesgotável de energia que dispomos (o Sol, já que o vento pára se enchermos tudo de moinhos)? Que escolhas teremos de fazer para continuarmos todos os 7 biliões, vivos e boa saude, num mundo de recursos limitados, durante muito tempo?

São estas algumas das questões que a ciência ajuda a responder. Em face delas, a escolha de querer viver com paz, saude e liberdade até é o pedaço mais simples. É no como que está o grosso do problema. E é no como, através da capacidade de prever os acontecimentos no mundo fisico, que a ciencia pode ajudar - e ajuda. Sem a ciência nem sequer tinhamos chegado onde estamos. Continuavamos a achar que as doenças eram causadas por maus humores (fluidos) e que a vida era um sopro como o do vapor. Que dançar podia fazer chover e que sacrificios humanos traziam boas coisas para todos. Não havia medicina, agricultura moderna, meios informáticos, nem Dr. House para ver na TV.

Achar que amplificar os factos cientificos é a nossa obrigação, ou melhor, que do que "é" podemos verbatim dizer o que "deve" ser, é uma falácia, a lógica não segue. Asneiras dessas tivemos com o Darwinismo Social, por exemplo. Mas isso não é lógico e se não é lógico não é ciencia.

De facto, a ciência não nos diz que devemos escolher viver. Diz apenas algo do que devemos fazer se queremos viver. Esse é o valor humano da ciência. E é cada vez maior conforme os problemas de um mundo superpovoado a ser chupadinho se revelam. É preciso escolher com muito cuidado as nossas acções, gerir muito bem os recursos se queremos continuar a ter outras liberdades. Como viver. Todos.

Podem dizer que não foi só a ciência que nos trouxe até aqui ou que a ciência ainda precisa muito de outro tipo de especulação e discussão, moral e ética, como a escolha dos tais principios que propus. Tudo bem/ Fair enough. Mas a ciencia não deixa de ser imprescindivel por causa disso. Quando damos as nossas escolhas como factos, isto é, quando passamos a dizer que é um facto que fazemos determinadas escolhas, logo aí entra a necessidade da ciência. E não pára.

Depois de saber que acções conduzem a um mundo melhor, melhor com os critérios de uma maioria, porque permanecer calado? Porque não se pode tentar mostrar que há coisas que sabemos que vão dar buraco e porque sabemos que vão dar buraco? Porque precisa de vir logo o fantasma do cientificismo como refutação universal do cetico cientifico? É apenas um espantalho, um moinho de Cervantes, no meio intelectual  ceptico do mundo moderno ligado à internet. E se há quem queira ir contra a ciência, normalmente é porque acha que a ciência está errada acerca de questões factuais empiricas. Não porque admita (embora por vezes hajam como se assim fosse) que podemos fingir que o mundo é de qualquer maneira ou que tem a sua realidade de bolso, feita à medida. E isto, que fique o desafio para pensar, diz muito. Pelo menos mostra a importância que tem para todos o que podemos saber sobre o mundo empirico e do que dele podemos prever. E isso é tarefa da ciência.
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