quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Drama e argumentos homeopáticos.


Isto começa com um  "post" pertinente que  o David Marçal escreveu no blogue "De Rerum Natura" e de que eu aqui fiz eco imediatamente. Era sobre a regulação das medicinas alternativas e de como isso é contra o que devíamos estar a fazer. Uma actividade regulada é uma actividade legitimada em certos aspectos. E para quem não sabe mais, isso é como que uma recomendação institucional. Por isso eu, o David Marçal e muitos outros achamos mal regular a actividade pseudomédica. E depois, quem tem uma ideia do processo que leva a isto, tem uma ideia muito boa em que moldes as coisas vão ser feitas. Vai tratar-se de facto de uma legitimação das pseudomedicinas. Ou então alguém consegue mudar o rumo das coisas.


O Desidério Murcho, filósofo de serviço do De Rerum Natura, fez em reflexo ao texto do David Marçal um "post" em que fazia a defesa do direito à palermice e que o David Marçal não podia proibir a homeopatia. Mas o David Marçal não pode nem nunca quis proibir a homeopatia (nada no texto dele aponta para isso). Nem ele, nem a maioria dos que lhe responderam (para não dizer todos).

De facto, os ceticos da praça parecem estar todos de acordo que não se podem proibir as pseudomedicinas. Mas isso também não quer dizer que elas nesseçariamente sejam de algum modo recomendadas ou que sequer se deva tomar uma acção que sugira que são recomendadas. Por exemplo, eu escrevi um post sobre o que achava que devia ser feito, logo a 14 de Setembro, quando a coisa começou fervilhar, dizendo o que esperava de uma regulação (mas que não é o que vai acontecer certamente) e onde esclareci logo que não queria proibir nada. O Ludwig Kripphal escreveu depois um post muito bom em resposta ao do Desidério e o David Marçal também, todos notando que não queremos proibir nada, apenas não aprovar. Isto, porque o post (e comentários do próprio nesse post e seguintes) além de acusar de algo que ninguém quer fazer, usava os argumentos mais estranhos. Sugeria que talvez houvesse alguma verdade na homeopatia, que eventualmente haveria uma espécie de conspiração contra a homeopatia. Argumentava também algo do género  de que se não faz mal a terceiros andar a vender gato por lebre  e quem compra gato continua convencido que é lebre, então devia poder vender-se gato por lebre. Isto foi-lhe tudo respondido adequada e convincentemente. 



No entanto o Desidério achou que ainda tinha mais uma cartada na manga. É a do cientificismo. Que não deixa que as discussões politicas sejam verdadeiras discussões porque não nos deixa querer alcançar a verdade. Aparentemente, estas discussões apenas servem aqueles que querem empurrar o mundo na direcção que querem, não porque se tenha investigado, estudado, ponderado um assunto, mas porque sim. Porque ao que parece, o direito a empurrar o mundo pertence apenas àqueles que estudam filosofia. Esses sim, porque os outros sofrem de cientificismo. E o apelo à autoridade para o próprio e para Rawls está lá. E se bem que ninguém defenda um regime autoritário em que as pseudomedicinas são proibidas, o espantalho do cientificismo monstruoso contra a bela filosofia está lá. Num novo post.

Descobri-o através de um optimo post do Marco Filipe no Comcept. Pensava que o Desidério tinha compreendido que estava a dar tiros ao lado e a usar maus argumentos para disparar esses tiros. Mas não. Ele decidiu mesmo lançar a cartada do cientificismo, chamar ignorantes a todos e reservar o direito de ter verdadeiras discussões a ele e a quem estudar filosofia. Os outros estarão apenas a ter pseudodiscussões, e a tentar empurrar o mundo, coisa que ele não percebe que também faz ao dizer como devem ser os participantes numa discussão ou que o mundo deve ser assim ou que não se pode fazer assado.

Quanto ao cientificismo, neste caso, se significar tirar conclusões diretas de como deve ser algo a partir do que as coisas são é errado. É uma espécie de falácia do naturalista. No entanto o que estamos a fazer ou a tentar fazer, é ver como as coisas são para tentar dizer como elas devem ser para vir a ter determinados resultados que levem a um mundo melhor de acordo com as nossas escolhas. Para todos. E isso inclui a liberdade pessoal e o direito a ela. Por isso não estamos a tentar proibir nada, mesmo que isso fosse melhor para a saude das pessoas, só para que não se sintam menos livres. Porque temos de respeitar gostos das maiorias e manter a estabilidade social e criar um ambiente onde as coisas sejam discutidas racionalmente. Para chegar à verdade.

Mas o cientismo e querer empurrar o mundo, diz o Desidério, faz com que não estejamos querer saber a verdade.

Só que aquilo a que o Desidério chama cientificismo, julgando pelas respostas que eu li ao seu post e que ele acusa, é um espantalho. Está longe de não ser uma posição em resultado de pensamento racional e investigação honesta, em relação aos factos em disputa. Factos esses que o Desidério põe em causa ao apelar à dúvida sobre o conhecimento cientifico e em cuja tentativa de descredibilização assenta parte da sua argumentação. Talvez não se possa ter a certeza de nada, mas por tudo o que se sabe que serve para validar uma afirmação sobre o mundo empirico, e é sobre este que estamos a falar, as respostas que foram dadas ao Desidério são originadas por imensas linhas convergentes de investigação sugeitas aos mais rigorosos critérios para eliminar entre outras coisas a parcialidade. Talvez não sirvam para especular sobre entidades inventadas que podem não existir fora das nossas mentes. Mas é o melhor que temos para dizer o que há nas nossas mentes e fora delas. E para fazer precisões sobre o mundo empirico.  E se queremos fazer planos para o futuro, temos de tentar basear as nossas decisões naquilo que sabemos que é o mais próximo da realidade que aquilo que sabemos não se lhe aplica. Sabemos que a democracia é algo a proteger. Não podemos ferir  a estabilidade social proibindo coisas populares. Mas sabemos também que a homeopatia não funciona.

Não podemos proibir. Mas podemos também não incentivar. E chamar a atenção que aquilo que parece ser uma liberdade de escolha, na realidade não o é. Porque não faz aquilo que a pessoa pensa que escolheu.

Não é o mesmo que gostar e ter o direito de por caca de cotovia na sandes. É muito mais como comprar a Lua. Há liberdade de escolha quando as opções são legitimas. Não há liberdade de escolha se o que nos é dado não é o que nós escolhemos. Há quando o que nos é dado é o que nós escolhemos.

E no entanto esta confusão é um dos argumentos do Desidério. Não devemos dar a homeopatia a quem a escolhe ser tratado porque a homeopatia não é tratamento. Devemos dar-lhes a homeopatia porque não temos maneira de explicar a todos porque estão enganados.  Ainda. Mas temos de alertar para o engano através de "posts" como o do David Marçal.

É de notar ainda que em outros casos obrigamos a vacinar, por o cinto, usar capacete, não usar drogas pesadas, não por demasiado sal no pão que se vende no supermercado, etc, etc,etc... É uma questão também da popularidade e do resentimento que isso pode causar.

Por isso, acho mesmo que estas discussões são importantes. Não pretendo calar quem tenha a opinião oposta e estou disposto a apresentar uma longa série de razões para desacreditar a homeopatia. Não pretendo apenas apelar para a autoridade da ciencia, ou para a minha, como argumento e responder ao Desidério que de homeopatia não pode discutir comigo. Apelos à autoridade são sempre uma forma fraca de argumentação já que apelam por outro lado a infalibilidade de alguém. Apelos a consensos de especialistas são melhores heuristicamente, mas isso não aconteceu.


A não ser que o Desidério ache que as pessoas não devem ser protegidas contra aldrabices que podem nunca vir a descobrir, (como ter um seguro de vida falso, não lhe cair o teto de casa em cima, ir ao hospital e ser atendido por um pseudomedico sem saber, etc),  então a razão para não se proibir a homeopatia não é para dar liberdade. É para que as pessoas não sintam que perderam a liberdade. Porque liberdade é a de poder escolher e ter o que se escolheu, o melhor possivel. Ter liberdade é muito mais ter boas opções que uma data delas imaginarias. Só a crença é pouco para validar uma escolha. Tem de ser ter em conta o efeito na sociedade dessa escolha. E uma vez que estamos a falar de precepção de liberdade, nem de liberdade em si, é bom que tenhamos bons argumentos para sugeitar a sociedade à descredibilização do valor da ciencia.

Mais uma vez, este arguento não é para proibir. Mas é para poder discutir. E de preferencia não legitimar.

Outro erro que o Desidério repete uma e outra vez e que já lhe tinha sido respondido é que não faz mal a terceiros, que é uma escolha privada, pessoal.  Mas faz. Pode fazer mal por aumentar o tempo de contágio de uma doença por falta de tratamento, aumentar o numero de focos de contágio por ausencia de vacinação adequada, aumento do dispendio de recursos médicos por permitir o agravamento de doenças antes de chegar a um hospital a sério, etc. Faz mal por ser uma industria não produtiva que em nada contribui para a sociedade em que todos vivemos, por eventualmente começar a sair do erário público e por criar um sentimento anti-cientifico, (já que estes pseudos são todos pró-ciencia até começarmos a argumentar com eles. Começam logo a desbastar na ciencia quando se lhes mostra que os argumentos cientificos são em maioria contra as suas ideologias). 

E depois, diria mesmo que  promove o pensamento irracional. "Wishfull Thinking", a validação da evidencia anedótica, o pensamento mágico, etc, etc, etc. E depois de promover o pensamento irracional, e de legitimar  quem consiga ter popularidade, apesar de vender gato por lebre, acaba por corromper o objectivo ultimo da sociedade de maximizar recursos e bem estar. Estariamos a dedicarmo-nos aos recursos errados, como na idade do pensamento mágico.

Outra coisa: Ninguém pode estar a par de tudo o que é treta ou  não é o tempo todo. Tem de haver um estado que protege em grande medida para haver segurança. E para muita coisa há, e a pedido geral das pessoas. É aliás uma marca da democracia, ter um estado em que as pessoas têm confiança naquilo que propõe (e ainda assim queixarem-se).  E a medicina já existe, já é regulada, e não precisamos destas confusões. Eles que a pratiquem sem qualquer tipo de recomendação, certificação, aprovação ou legitimação.


Mas quer me parecer que o problema desta troca de posts, é muito mais a cientofobia que a defesa racional de uma liberdade que ninguém quer tirar. É que já se disse que faz mal a terceiros, que nada, mas mesmo nada que não seja relativista ao extremo suporta a validade da homepatia. Já se disse que não há aumento da liberdade, apenas a percepção desta e que mesmo assim não queremos acabar com a percepção desta. Agora é se podemos ou não ter discussões verdadeiras porque não somos filosofos? Que não queremos chegar ao fundo das coisas? Que isso é por causa do alegado cientificismo?

Cientofobia. 

Volto a dizer. A melhor maneira de lutar contra crenças populares baseadas na ignorancia é mesmo pela via da discussão livre e educação.

Por ultimo queria comentar a alegação de que os "cientificistas" são aversos à filosofia e à história. Para os Naturalistas, como eu e outros aparentemente no ramo do "cientificismo"  a filosofia e a ciência misturam-se e são a mesma coisa em muitos aspectos. A história idem. É em muitos aspectos uma ciência e cada vez mais para lá caminha. As teses históricas são sempre naturalistas, procuram basear-se em factos que podem ser verificados por todos, tentam cada vez mais ser testadas por condições falsificadoras e usam recursos tecnológicos sem medo. E na ciência também existe especulação, comparação de dados, hipóteses, procura de consensos, etc. Até a procura de fontes independente que sejam convergentes nos mesmos achados é identico em ambas. Eu vejo a história como uma ciência, há é apenas coisas que provavelmente nunca viremos a saber se não andarmos no tempo. E outras que apenas ficarão com um grau variável de plausibilidade.

Update: Alterado 16:11 para corrigir algumas inexatidões menores e pontuação.

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