quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Deus, o mapa e o território.

O Prof. Alfredo Dinis continua a sua série de textos dedicados ao ateísmo moderno -  a que chama de radical apenas porque é tão afirmativo acerca da inexistência de Deus do mesmo modo que ele próprio é acerca da existência. Eu acho isso um exagero inconsistente.


Não percebo esta argumentação:

Não é radical defender a existência de uma entidade para a qual não há ponta de evidencia e ainda divulgar leis morais derivadas dela. Mas responder que isso é um apelo à credulidade sem sentido racional nenhum já é.

E dizer que a ciência não pode - como que por decreto - estudar a existência de Deus pelos vistos também não é radical. A ciência estuda a realidade, seja ela como for, e se Deus é real então está no âmbito da ciência. Só se não existir é que não pode estudar. Claro que há coisas que não conseguimos medir ou testar, umas  porque envolvem muitas medições, outras porque são poucas mas praticamente impossíveis - como o que pensava Afonso Henriques sobre a sua mãe - mas nenhuma destas impossibilidades é essencialmente algo que transfira para o palpite ou a metafisica o que são dados científicos ainda que inacessíveis. Eu também não sei o que está a 5 metros debaixo do chão agora que escrevo isto, mas isso não deixa de ser, como as questões anteriores, um problema muito mais circunstancial e dependente do processo do que da natureza das coisas em si. Ainda não podemos ler pensamentos e não sei se vai um dia ser possível, mas tudo indica para que não haja nada que impeça a explicação de como se formam esses pensamentos.

A ciência não explica o que não existe. Explica o que existe de acordo com o que se pode saber. E cientificamente, em rigor, se nada há a que se possa atribuir a uma determinada entidade, então essa hipótese é descartada. É a hipótese nula. É a lamina de Occam. Começou por ser filosofia e Aristóteles colocou assim a questão: "As entidades não devem ser replicadas para além do necessário".


Mas Deus existe. Os crentes sabem e sentem. Deus é amor. Deus é metafisico. Deus pertence a outro nível, pertence ao mundo das ideias. Certo. É um facto.

Como uma poesia sobre o por-do-sol, Deus é algo que... Não é inerente à realidade. É inerente a quem vê esse por-do-sol e descreve uma mistura do que vê e do que o que esse por-do-sol faz sentir. Mas o que sente pertence a si. Não à realidade exterior. É realidade enquanto sentimento. E isso é tudo o que nós podemos saber de Deus. É que algumas pessoas o sentem em si. O amam. O vêem em todo o lado.

Mas tal como o por-do-sol é representado por um conjunto de padrões neuronais capazes de desencadear várias reacções no organismo, idem para o conceito de Deus. Deus é algo intrínseco ao ser humano.  É interior. E nesse aspecto é real. Tão real como a cabeça. Apenas é mapa e não território. Tal como a sensação que o por-do-sol desencadeia no cérebro é um mapa de sensações e padrões, Deus também é mapa. Não está na realidade.

E a melhor ferramenta que a humanidade criou para descrever a realidade foi a ciência. É de tal modo boa que os crentes já nem querem argumentar que Deus esta nas coisas que a ciência não descreve ainda (embora estejam sempre a resvalar para lá). Insistem que Deus esta nestas mesmas coisas que a ciência descreve sem precisar de recorrer a deuses. Insistem que sabem que Deus esta lá apesar de os melhores esforços racionais mostrarem precisamente que não esta. E dizem que esta "metafisicamente"... Pois está. Está lá para quem o vê lá. Mas é propriedade de quem vê e sente e não da realidade. Essa continua indiferente à crença. E é por isso que sabemos que Deus é apenas mapa e não território. É porque a ciência mostra como tudo se passa como se Deus não existisse. E como é bem mais fácil de compreender se o considerarmos algo na mente.

Se algo não é distinguível de um fantasia é porque provavelmente é uma fantasia. Para todos os efeitos (distintos da crença), Deus não existe. Tal como um medicamento que apenas tem efeito placebo - que é efeito da crença -se conclui que não funciona, se acerca de Deus tudo o que sobra é efeito da crença, então é porque é efeito da crença. Não que há um Deus para justificar a crença. Porque crenças há muitas. E é precisamente a ciência que tem sido melhor capaz de distinguir as que correpondem à realidade e quais estão apenas na mente.

O Prof. Alfredo Dinis cita a N.A.S. para defender a sua ideia de que a ciencia não pode dizer nada acerca de deus. É uma asneira. É uma afirmação politica. Foi originada não pelo conhecimento cientifico mas por uma escolha de se querer inserir e ser aceite na sociedade crente da America.  Porque a verdade é que sabemos que a maioria dos seus membrossão ateus.

A verdade é que não falta nada para mostrar que deus não existe. A unica maneira é aceitar o palpite como sendo uma forma de conhecimento. E dizer que o mapa e a realidade são uma e a mesma coisa. Mas nem tudo o que vem à mente correspode ao que se passa na realidade ca fora. E para isso a ciencia é a melhor aposta. E a ciencia descreve outras entidades e processos que não um omnipotente, omnipresente, omniscienciente, bom e justo! Quem diz que tal coisa existe é que devia avançar com provas. E bem solidas. Andar para aí a dizer que isto e aquilo é verdade é facil. Mostrar que é mesmo verdade é que é dificil. E no entanto o radical sou eu.
Enviar um comentário