terça-feira, 28 de abril de 2015

As definições

Havia um filósofo que dizia que o significado das palavras era o uso. Isso parece-me razoável. Quando dizemos "morango" produzimos uma sequência de sons que aprendemos que indicam um fruto vermelho. Mas depois usamos também essa palavra para indicar um desenho de um morango. Com um bocado de azar, existe alguém com gato chamado "Morango". E o uso deu então uma série de significados novos à palavra "morango". Ainda assim, se falarmos em morangos, requer outro tipo de filósofos para questionar se não estamos a falar de laranjas.

E o problema é que eles andam aí.

Em vez de utilizar a linguagem para comunicar, utilizam a linguagem para impedir essa comunicação. Ou pelo menos torná-la tão improvavel como acertar na lotaria.

Por exemplo, queremos expor uma ideia que lemos sobre a inteligência ou avançar um argumento e vem logo o comentário "mas o que é a inteligência?". Ou, "o que é a consciência" ou "Deus", etc.

Se fosse para clarificar os conceitos e determinar limites, podia dar geito para a conversa, mas muitas vezes é mais um tique de pseudoprofundidade que serve apenas para tornar as palavras tão ambiguas como possíveis.

Este tipo de filósofos, porque isto deve ser daquelas coisas a que se referem quando se fala em "em  outras filosofias" consegue rápidamente transformar a conversa, num ensaio sobre a inteligência das bactérias, ou sobre a possibilidade de Deus ser tudo o que existe (e isto é muito profundo, não brinquemos, e para mais prova que Deus existe) etc, conforme fosse o tema inicial.

O problema  mais grave é que isto começa a aparecer na literatura cientifica. O estudo da fisiologia vegetal agora tem um campo chamado neurobiologia. É engraçado porque as plantas não têm neurónios. Mas tudo bem, podiam ter chamado Miguel ou Tobias, por isso neurobiologia parece melhor. O problema é que querem com isso determinar que estão a estudar algo que será equivalente ao sistema nervoso das plantas. E assim, ja podem encontrar todas as caracteristicas do sistema nervoso ali representadas. Se uma planta ao fim de 5 flores dá uma com cor mais ténue fica provado que a planta tem memoria ou sabe contar (esta é inventada, o estudo original é com biopotenciais mas o problema é o mesmo). Se os estomas da planta interagem entre si em cadeia, ao ponto de haver influencias para lá do vizinho do lado , (possivelmente, ainda não está provado) estamos a falar de algo como um sistema nervoso central, e por aí fora.

Mas a coisa é assim. Por este processo eu posso argumentar que um cepo é inteligente, ora vejamos;

Quando dou uma machadada no cepo, ele comunica a marretada a todas as partes do seu corpo sob a forma de energia mecânica e essa energia mecânica pode ser objecticamente medida em Newtons, o que prova não só que há comunicação de informação pelo corpo do cepo mas também que ele tem um sistema nervoso central. Para mais, fica uma marca no local da machadada que corresponde à parte da lamina que se enfiou no cepo, logo o cepo tem memória. O cepo também processa informação tal como se pode provar pela identificação dos estimulos e respostas diferenciais e de facto a machadada não produz a mesma memoria ou reacção que a martelada. Normalmente reage à primeira com a multiplicação ou racha e à segunda com uma depressão com a forma da cabeça do martelo. E agora, não podemos dizer que o cepo não sente já que dificilmente podemos dizer que não há alterações no corpo do cepo (e já vimos que podemos medir essa percepção por todo o cepo). Portanto os cepos devem sentir dor. Vamos fazer a liga da defesa do cepo.

E cá está, Brilhantemente reduzi qualquer limitação que pudesse ser posta às palavras "memória", "inteligencia" e sei lá mais o quê, para acabar com a limitação que qualquer um quizesse por no magnifico cepo, certo?

Errado. Apenas desprovi as palavras do sentido que o seu uso habitual e cientifico lhes deu. Mas não produzi nenhum argumento acerca da senciencia dos cepos, ou da inevitabilidade de que o cepo seja senciente caso eu queira falar sobre senciencia. O que eu fiz agora foi mesmo uma redução ao absurdo (surpresa!). Para ilustrar que o que temos de fazer para avançar as discussões é definir os termos de modo a que saibamos do que estamos a falar, e, não para que não sejamos capazes de os usar...

Nota: Este post vem em sequência do post anterior e dos estudos de neurobiologia vegetal que descobri por aí. Por mim podem continuar a usar esse termo e até os outros todos (memória, inteligencia, etc), mas para isso convinha ter a honestidade de dizer que não se referem exactamente à mesma coisa que essas palavras significam  para alguns participantes no reino animal. Por exemplo, o termo inteligência aparece muitas vezes na informática. Mas muitas vezes também é acrescentado o termo "artificial" que ajuda a perceber que não estamos a falar exactamente da mesma coisa (e penso que ainda não estamos, embora eu suspeite que ela está muito mais próximo da inteligencia humana que a chamada inteligência das plantas).
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