terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Occam e o silogismo criacionista.

A seguinte colecção de postulados tem sido usada como argumento alegadamente imbatível a favor do criacionismo:

"1) existência de informação codificada é sempre evidência de inteligência
2) o DNA tem informação codificada
3) Logo, o DNA teve origem inteligente"

Daqui, geralmente, partem para a conclusão que Deus criou o DNA e depois para a ainda mais incrível alegação de que o modelo evolutivo tem de estar errado.

Bastava encontrar um erro numa das premissas para tornar o silogismo invalido para qualquer conclusão. Ora, eu vejo erros em todas as 3 afirmações.

Em 1) dizem que toda a informação codificada tem sempre origem inteligente. Isto é verdade apenas para a codificação em que existem convenções e uso pré-determinado de simbologia. O DNA são moléculas, não são símbolos. Os símbolos criamos-los nós para descrever e explicar o que se passa nas reacções quimicas dos acidos nucleicos. Se considerarmos o DNA informação codificada, temos de abdicar da necessidade desse processo de convenções intencionais na definição. De qualquer modo, em ciência, uma afirmação deste peso requer prova. Existe pelo menos um criacionista (que deixa longos comentários em todo o lado) que tenta provar pela negativa. Diz que não se conhecem excepções à regra (que toda a informação codificada tem origem inteligente). Provar pela negativa, aqui não serve. Porque se O DNA é informação codificada como propõem em seguida, então há indícios que vão noutro sentido, que apontam para que não necessita de uma origem inteligente. Se o DNA não é informação codificada, então o assunto também esta arrumado. E passamos a 2)

Em 2) dizem que o DNA é informação codificada. Mas aqui é preciso realçar o problema já referido antes que sugere que há uma diferença entre informação codificada de ocorrência natural e aquela criada artificialmente. O Professor Ludwig Krippahl apresenta aqui um bom argumento no sentido de que o DNA não é informação codificada (link1). Eu estou de acordo com o que ele diz. Apenas ressalvo que, dada a utilidade das teorias da informação para explicar as reacções químicas envolvidas na genética, que podemos distinguir entre dois tipos de informação codificada e acabar com situações ambiguas. Mas é óbvio que segundo o conceito clássico (e actual) de código há uma falha. Insisto para que seja visto o link 1 a esse respeito. Em resumo, se levarmos os conceitos todos à letra e não testarmos a hipotese de não haver origem inteligente, acabamos por confundir o mapa com o território, símbolo e realidade (neste caso molécula).

Em 3) cria-se um problema ainda maior. Porque a levar a sério o assunto tínhamos de concluir que o DNA teve origem humana. Eu acho esta hipótese implausível e os criacionistas também. Por isso é preciso ir descobrir novas entidades inteligentes e violar o príncipio de Occam. Terão sido aliens? Talvez, mas não é isso que acham os criacionistas. Dizem que essa entidade inteligente só pode ser Deus. Mas Deus, quer nós queiramos quer não, surge como uma entidade extraordinária necessária para justificar as permissas anteriores. Logo, em ciência, requer não só prova da sua existência, como prova de que de facto criou o DNA. Se usarmos a prova pela negativa, ironicamente aqui podemos é concluir que Deus não existe, porque como defendido por vários teólogos a hipótese Deus é intestável (logo não é possível reunir factos que sustenham a sua existência). E muito menos é possível encontrar suporte que Deus criou o DNA (mesmo que exista). Resumindo, pelo principio de Occam se pode concluir que a hipótese Deus (e não Deus, atenção) é fraca.

Mas prosseguindo. Mesmo que Deus tivesse criado o DNA, isso não diz que Deus impediu o DNA de evoluir. Deus pode ter criado o DNA numa forma primitiva e depois ter evoluído. O próprio Darwin assume que era crente quando escreveu o seu celebre tratado, e que só muito lentamente foi deixando de acreditar em Deus.

Quanto à origem da vida. Bem, existem boas teorias que não violam princípios científicos básicos como a lamina de Occam.

Bem, decerto que um filósofo faria melhor, mas acho que o importante ficou dito. E é na realidade muito simples: Pode haver erros em qualquer das permissas, portanto se a afirmação pretende ter valor cientifico então requer provas, factos, evidencias.

(link 1)http://ktreta.blogspot.com/2008/12/miscelnea-criacionista-outra-vez-treta.html
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