sexta-feira, 21 de outubro de 2011

"Coisas que a ciência nem reconhece" e a velocidade da luz.

Ouço muitas vezes algo como "é explicado por coisas que a ciência nem reconhece". Mas existem tais coisas? Como sabemos que existem se não têm factos para as suportar? E se têm que razões há para dizer que a ciência não os reconhece? Alguma vez isso aconteceu significativamente?

Há uns dias atrás a comunidade científica foi confrontada com algo que não deveria acontecer segundo a sua crença.

A saber, o laboratório CERN anunciou que mediu neutrinos a moverem-se mais depressa que a luz.

No entanto, em vez de negar a existência desse novo facto, divulgou-o para o mundo inteiro ficar a saber que algures nas bases de uma das teorias mais importantes da física, muito provavelmente existe uma excepção fatal. Sim, este facto novo pode ser suficiente para falsificar a teoria da relatividade. Uma qualquer teoria que emerja da integração desta nova informação vai ter de ser fundamentalmente diferente da gravidade ainda que tenha de ter resultados quase idênticos para uma série de outras questões.

 O surgimento de uma nova anomalia é tanto temida como desejada pela comunidade científica e é importante notar como reage nestas situações. Neste caso, sabemos que os autores da experiencia, demoraram algum tempo para a divulgar (meses)  e só o fizeram depois de terem uma grande confiança nas medições. Tinha de ser. A certeza de uma medição com este género de resultado não pode ser considerada de confiança sem um grande rigor na medição e publicar resultados trapalhões não pode ser. Tem de se afastar a hipótese de erro, já que contraria os resultados de muito mais experiencias efectuadas antes e que levaram à confirmação da teoria da relatividade. Mas uma vez obtida essa confirmação, com um grau de certeza bastante razoável, esse resultado foi divulgado.
A comunidade científica em geral, reagiu da mesma forma, no momento logo após a publicação. Em vez de negarem a existência de coisas que não podem explicar começaram por passar a pente fino os procedimentos. De um modo geral lembro-me que as reacções eram de espanto perante o rigor da experiencia. Logo de seguida, levantaram-se as questões da replicação independente. Nada de novo também. Uma coisa que falta é que um grupo independente e concorrente possa por neutrinos a viajar mais depressa que luz e segundo consta existem várias experiencias a correr que podem ser modificadas para o efeito.

Mas seja como for ninguém está a fingir que não vê o que não pode explicar. Pelo contrário.

 A quantidade incrível de artigos que surgiram a tentar explicar estes resultados é ilustrativa. Ninguém está a dizer: “isso não aconteceu porque é impossível!”.  E se a ciência tivesse esse tipo de procedimento nas suas fundações, esta era a altura de a usar. Mas não tem. Não funciona assim. A ciência é acerca de factos e explicações para esses factos. Temos é de saber que não são apenas impressões e são mesmo factos.

Como disse a inundação de artigos é enorme e alguns nem esperam a confirmação independente para avançar com explicações: Desde a possibilidade dos neutrinos terem usado dimensões extra para chegar ao destino (a teoria das cordas assume várias dimensões), a outras em que se propõe que esta seja a velocidade máxima absoluta e não a dos fotões (luz)). Muitos artigos exploram minuciosamente que fragilidades podem haver e onde a experiência pode ter falhado – o que é muito importante para as repetições que se seguirem.
De resto, parece-me que se está a seguir os passos normais do processo cientifico, da dúvida metódica e a repetir o que é feito quando grandes anomalias são encontradas. O mesmo aconteceu quando se descobriu que a luz tinha a mesma velocidade independente da velocidade da fonte. Foi repetido até se ter a certeza que era um facto e quando se teve a certeza que era um facto tivemos de encontrar uma explicação. Foi muito difícil e precisámos de uma mente como a de Einstein. Mas que a luz tinha a mesma velocidade em qualquer direcção medida independente da velocidade da fonte já era aceite como um facto. Senão ninguém tinha aceitado a relatividade. Claro.

Existem cientistas que não acreditam nestes resultados e dizem-no abertamente. Mas dizem também que esperam que as próximas experiencias mostrem onde está o erro que deu origem a estas medições, o que pressupõe que se isso não acontecer que terão de rever a sua crença. Em todo o caso, estão a tentar adivinhar, era mais sensato esperar.

Mas o que é fundamental é que a comunidade científica está, como sempre esteve, preparada para seguir aonde levarem as evidências. E isso é o que podemos concluir até agora, ainda se não podemos ter uma certeza com rigor cientifico de que os neutrinos andem mais depressa que a luz. Está-se a fazer o que é preciso para clarificar essa questão, com abertura e racionalidade.

Aquelas acusações de haver coisas que a ciência não reconhece têm dois grandes problemas. Uma  é explicarem como é que sabem que essas coisas existem e não são apenas palpites mandados à toa. A outra é que justificações têm para dizer que a ciência não reconhece seja o que for que possa ser bem estabelecido como real. É porque não sabem como funciona a ciência e nem sequer querem saber. Dão sempre a ideia que a ciência tem uma lista de coisas que tem de esconder para continuar a ter sucesso. Se isso fosse verdade, nada mais importante para estar nessa lista que violações à velocidade da luz.

Quanto à minha opinião pessoal sobre este assunto, não tenho. Estou à espera. Não sinto necessidade de formar uma opinião acerca deste assunto com a informação que existe. O que sei é que existem razões para levar a questão a séria e agora precisamos de verificação independente para passar a ser conhecimento. Ter opinião sem ser conhecimento só serve se temos pressa. Eu não tenho. Espero.
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